Sunday, October 26, 2008
Mamma Mia
Monday, October 13, 2008
Sunday, September 28, 2008
Bolas de naftalina
Parecia saída de um guarda-fatos de Narnia, cheia de colares de pérolas, rendas pretas e casacos de peles. Aparecia sempre de surpresa, cansada e vagamente perdida no tempo, como se tivesse vindo numa perignação de doces e histórias tristes. Os doces vinham na mala preta de lantejoulas, reminiscente dos anos 20. As histórias, essas, vinham nos olhos azuis, líquidos e transparentes como água. Eram levemente cinzentos como um mar que já viu muitas tempestades.
Lembro-me de poucas coisas concretas a respeito dela mas é uma presença omnipresente nas minhas memórias de infância. Como um cheiro que nos remete para algo que vivemos, também ela era uma âncora que me ligava à pessoa que eu era. Não pela proximidade emocional mas pelo mecanismo de busca que activava no meu cérebro.
Quando estas âncoras desaparecem será que perdemos um pouco dessa essência distante? Será que os fragmentos esfumaçados da nossa memória são suficientes para ainda lhe dar consistência?
Quando me lembro dela recupero memórias cuja existência eu desconhecia. Provavelmente estavam perdidas no mesmo guarda-fatos de onde ela saia e onde eu me escondia quando era pequena, para fugir da minha avó. Sentava-me no meio dos casacos e em cima das mantas e ali ficava, no escuro, à espera que me encontrassem.
Estas memórias deviam estar no bolso de um desses casacos. Agora que o voltei a usar, levei a mão ao bolso e encontrei-as. Como uma nota ou um bilhete antigo de cinema, já sem cor, que nos faz viajar para o passado.
Se calhar, há uma parte de nós que se torna inacessível à medida que vamos crescendo e só estas âncoras têm força suficiente para as manter à tona. Ou então, a pessoa que erámos nessa infância distante começa a assemelhar-se às imagens do Titanic no fundo do oceano: um pedaço de aço enferrujado a destilar memórias no silêncio líquido. Em toda a sua glória e beleza misteriosa, torna-se indestrutível. O preço que pagamos por esta sobrevivência teimosa é a distância. Da realidade e das âncoras que nos prendem ao solo.
Tuesday, September 16, 2008
I'm just drawn that way...
Friday, September 5, 2008
Tenha medo, tenha muito medo
2.Desconfie de estranhos com joelhos que se dobram para trás quando andam e para os lados quando correm (fazem-se excepções se o estranho em questão for contorcionista, aberração de circo ou se tiver seguido à risca a regra nr. 5)
3. Se o seu filho de 5 anos lhe falar com voz grossa, não tente perceber, chame um exorcista (se não resultar e o miúdo começar a vomitar uma mistela verde, aconselho que volte à regra nr.1 . Better safe than sorry)
4. Não tome duche se estiver sozinho em casa. Lave-se por partes (pode não ser muito higiénico mas aposto que a gaja do Psycho, dado o seu final trágico, não se teria importado em ter algum odor corporal...)
5. Se a meio da noite ouvir barulhos estranhos na cozinha, não vá ver o que é, fuja pela janela do quarto (se viver num 7º andar, aconselhamos a que não salte. Foi esse o problema do gajo da regra nr2. Vá buscar a arma que usou para matar a criancinha dos infernos e vá direito à cozinha)
6. Se for lavar os dentes, não se olhe ao espelho. Melhor, não lave os dentes (como para lavar os dentes não precisamos de nos olhar ao espelho, esta podem ignorar. Só não digam bloody mary 3 vezes perto do espelho e enquanto lavam os dentes)
7. Não dê boleia a homens com machados (especialmente se tiverem um Smart. O homem e o machado não cabem lá dentro e depois é uma grande chatice se ele vos quiser matar. Não tem espaço para manobrar o machado)
8. Não compre bonecos que andem ou falem (não interessa se se chamam Cindy ou Fluffy Bear. Vão acabar por se transformar no Chucky. São estes bonecos que dão origem às criancinhas das regras 1 e 3)
9. Não entre em cemitérios à noite e evite sotãos, caves, cabanas abandonadas e bosques (estas explicam-se por si mesmas...quem é que quer fazer coisas destas?? Só mesmo alguém que nunca tenha visto filmes de terror)
Bom fim de semana!
Tuesday, August 19, 2008
Buffy
(se querem a minha opinião, quem devia ter levado com uma estaca era o outro namorado, que aparece umas séries mais à frente neste enredo. Americano até à medula, era bocejante como ele só. Mas isso posso ser eu, que até acho piada a um homem com uma pitada - só uma pitada - de "bad boy". Antes bad que boring).
Para além disto tudo, a menina ainda canta, dança, e tem um sentido de humor retorcido.
Senhoras e senhores, Buffy Summers, a Caçadora de Vampiros. Nas horas vagas, fora de Gotham City e sem a minha máscara, não me importava de ser como ela ;)
Sing along, once more with feeling!
Sunday, August 3, 2008
Pornography
- Em que é que pensas quando estás a dançar?
- Penso em ti. Mas não devia.
- Porquê?
- Porquê o quê? Porque é que penso em ti ou porque é que não devia?
- Porque é que não devias.
- Não sei.
- Isso não é resposta.
- Eu sei que não é. Mas às vezes “não sei” é o melhor que se pode saber.
- E porque é que pensas em mim?
- Porque a tua imagem fala mais alto do que a música.
- Então quando danças, danças para mim?
- Se fosses menos presunçoso tinhas mais charme...
- Isso é um não?
- De certa forma é um "sim". Mas só porque não estás lá. Se estivesses, não o faria.
- Porquê? Achas que isto é um erro?
- “Porquê, porquê”. Já devias ter ultrapassado a idade dos “porquês”.
- Sim ou não?
- Talvez...mas mesmo que seja um erro, pode não ser necessariamente errado.
- Tu adoras contra-sensos.
- A grande beleza disto tudo é ser um contra-senso.
- Disto, nós?
- Não, a vida. Isto pode ser errado porque tu és tu e eu sou eu, mas também pode ser a coisa mais certa do mundo porque tu és tu e eu sou eu.
- Pois... podemos estar a desperdiçar o melhor de nós porque mais tarde pode revelar-se o pior em nós.
- O pior é perdermos um pedaço de nós que não pode ser reconstruído. Mas esse pedaço também nunca poderá existir se não arriscarmos estilhaçá-lo, portanto.. Lá está o contra-senso outra vez. Ou o duplo senso.
- Como dois bailarinos. Tens que acreditar que o teu parceiro não te vai deixar cair mas se acontecer, tens que voltar a confiar nele. Ou então mudar de parceiro.
- Não, isso não. Eu gosto de dançar contigo.
- Mesmo que eu te deixe cair?
- Sim. Se for esse o caso, teremos apenas que aprender outra dança.
- Então é porque não sou assim tão presunçoso.
- És. Mas eu gosto de arestas por limar.
- Pretendes limar-me?
- Não, pretendo deixar-te exactamente como és.
- Isso é estranho.
- Eu sou uma pessoa estranha.
- És. Mas eu gosto de arestas por limar.
- Pretendes limar-me?
- Não, pretendo descobrir que não és tão perfeita como pareces.
- E não sou.
- Pois, esse é o grande problema. Se não fores, tornas-te ainda mais perfeita.
- Perfeito seria irmos dançar agora.
- E se eu não souber dançar?
- Claro que sabes. Uma dança é uma conversa sem palavras. E nós já falámos muitas vezes em silêncio.






