Inside the doll house there are many rooms, doors and windows.Insides and outsides. Warm red velvet curtains and cold metal chains. Records playing in the distance and loud sounds right in your face.Ghosts running around free and puppets on a string. Lions,tigers and bears.Alice and the mirror, rabbits down a hole.Use your instincts,feel the way.Hear it,see it,taste it...
"(...) E fiquei a pensar no que me tinhas dito antes, sobre os sahraoui: como não têm nada, absolutamente nada, poupam tudo. Poupam a água, poupam as energias viajando de noite para evitar o calor. Até poupam nas palavras.
- Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno...
- Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer. "
Miguel Sousa Tavares, No teu deserto
"(...) As pessoas hoje «vão ao deserto», passeiam pelo sul da Tunísia e pouco mais. São incapazes de enfrentar a solidão. É por isso que vivem em redes sociais, virtualmente acompanhadas.
É o oposto dessa viagem em que o que é preciso é encontrarmo-nos só connosco, com meia dúzia de pessoas que são capazes de estar caladas durante cinco horas. Quem é que, hoje, é capaz de estar rodeado de pessoas e calado tantas horas? Ninguém. O silêncio dá medo, atordoa (...)"
É dito que o aprender a lidar com o mundo e com as pessoas é sinal de maturidade. Profissionalismo. Realismo. Que o "jogo de cintura" é uma ferramenta essencial à sobrevivência do "Homem das Cavernas Moderno"( que é como quem diz o Homem que ataca com estupidez, ignorância e falta de respeito, e não paus). No entanto, para desenvolver essa ferramenta, aprendemos a controlar o nosso lado mais emotivo. A dada altura, passamos a reagir mais do que pensamos ou sentimos. Ou melhor, o que pensamos e sentimos é adormecido num canto precioso até termos espaço mental para "lidar com". Para "reflectir sobre". Se pensarmos ou sentirmos demasiado, com muita força, deixamos de conseguir reagir à selva diária e essa selva é um facto incontornável do nosso dia-a-dia. Podemos e devemos aprender a conhecê-la para sabermos navegar. Para não termos medo dos dragões que existem para além das fronteiras conhecidas dos mapas. É preciso conhecer as regras do jogo para ser um bom batoteiro...
Mas será que esse enfraquecer dos músculos do sentir é reversível? Estaremos com isso a fortalecer o nosso sistema imunitário ou a perder o controlo de funções vitais? Até quando podemos adiar o pensar mais, o sentir muito? Quando é que vamos arranjar espaço e tempo, se nunca paramos?
Será que os instantes que partilhamos com aqueles que amamos são suficientes para manter o nosso lado mais verdadeiro vivo?
Uma gargalhada, um olhar, um toque. São estas as âncoras diárias que nos prendem às emoções que o mundo teima em congelar. É esta a linguagem que substitui as palavras que a vida nos esgota.
Tempo para uma pequena pausa da pista de dança. Passemos às ideias megalómanas de conquistar o mundo, gato branco e gargalhada maléfica incluída. Ou então, são apenas dois dos meus vídeos favoritos e a ideia de que o amor é um mundo dentro do Mundo, cheio de luz e sombras que esconde e revela emoções dúbias e irresistivéis (como esta "casa de bonecas" tenta ser, quando o ânimo o permite). Ou então é outra m***a qualquer. Choose what fits you better, the world is not black and white. And most of the times is more than enough. Enjoy.
Garbage - The world is not enough
Foo Fighters - Walking after you
(peço desculpa pelo corte de climax mas foi a única versão que encontrei disponível :P)
Abriu a "caça ao vídeo" no The doll house. Com a chegada do sol, apetece dançar para espantar os males. E como as palavras são muitas vezes "sem significado e fáceis de esquecer" - que é como quem diz "leva-as o vento" - o melhor é limitar-nos às palavras da música, à linguagem do corpo em movimento. E para dançar não há tabus. Anything goes.
Para começar, "clássicos" dos 70's e 80's, guilty pleasures que são sempre bem-vindos, como todos os prazeres...
Elton John & Kiki Dee - Don't go breaking my heart
Katrina and the Waves - Walking on the sunshine
Michael Sembello - She's a maniac (Flashdance OST)
Diana Ross & The Supremes - Stop in the name of love
(ok, não dá para abanar tanto a anca...mas a coreografia é um must)
Porque às vezes nos sentimos como a voz do Antony Hegarty, porque é simultaneamente belo e triste, porque esses opostos nos enchem de uma esperança inexplicável no futuro do Homem, porque nos faz flutuar e regressar à posição fetal, por tudo isto e por tudo o resto, aqui fica um video feito especialmente pelos Antony& The Johnsons para a Prada. Que o fogo de artifício de amanhã seja assim, simultaneamente belo, triste e cheio de esperança.
Grande parte daquilo que fazemos é baseado em fé. Não necessariamente no sentido religioso da palavra mas noutro, mais mundano e menos dogmático, que faz com que a vida ganhe dimensão. Sabemos pouco, temos certeza de menos ainda. Mas acreditamos e por isso vivemos, amamos, defendemos pontos de vista e valores que nos são preciosos, apenas pela simples razão que são nossos e os sentimos a bater no peito.
Gosto de acreditar. Não necessariamente em homenzinhos verdes ( e daí, porque não?). Acreditar simplesmente.
Uma epidemia de cegueira branca toma conta de uma cidade. Uma pessoa contamina a outra, em efeito dominó. A cidade pode ser uma qualquer grande metrópole, as pessoas podem ser quaisquer umas com quem nos tenhamos cruzado no metro. Podem ser o nosso melhor amigo ou um estranho que dorme na rua.
Em “Ensaio sobre a cegueira” tudo é assim: uma tela branca que serve de palco para a natureza humana. Embora seja considerado um cínico, Saramago é, nesta história, um autor isento. Coloca todas as personagens ao mesmo nível, sem quaisquer pré-definições de bem ou mal. Um "homem", uma "mulher de óculos escuros", uma "criança". Todas as personagens são descritas assim, sem nomes. Só existem factos banais e funções como "médico" ou "rei da camarata três". Até palavras como "ladrão" não acarretam julgamentos, são apenas descrições. São as próprias personagens que mancham a tela com as suas acções, provando que somos todos iguais, primitivamente violentos. Provando que talvez Saramago tenha razão na sua falta de fé na natureza humana. Mostrando que existe algo de profundamente assustador e belo nessa igualdade.
Quando os infectados pela cegueira são colocados em quarentena e retirados do seu “eu” civilizado, revelam a essência primitiva. Os grupos de camaratas diferentes tornam-se inimigos, começam os abusos de poder, as violações. As tentativas de "democracia" da personagem de Mark Ruffalo parecem patéticas, especialmente comparadas com o seu comportamento pouco recomendável. Quem é ele para julgar ou ditar? O asqueroso “rei da camarata três”, Gael Garcia Bernal, parece fazer mais sentido na sua falta de escrúpulos. Pelo menos soa a verdade no meio do caos.
Julianne Moore é a "mulher do médico". Ela é a única que consegue ver, tornando-se mãe, enfermeira, protectora, guerreira que faz das fraquezas forças. Uma espécie de hipérbole para o ser mulher que toma conta deste grupo.
O ditado diz que “ em terra de cegos, quem tem um olho é rei”. Neste caso, ela é uma "rainha" condenada a assistir à podridão humana de olhos bem abertos. Esta "cegueira" de Saramago é sobre o poder da visão. Sobre o poder esmagador da visão quando realmente vemos e não nos limitamos a olhar.
O que se passa dentro do asilo é apenas um micro-cosmos para a nossa realidade diária. Qualquer noticiário está cheio de histórias semelhantes. A personagem de Julianne Moore representa aquilo que aconteceria se de facto não pudéssemos desviar os olhos e ignorar. Se as constantes violações do corpo e da alma não se tornassem banais porque são frequentes.
Se todos sairmos desta "cegueira branca" como ela, a lutar com unhas e dentes pelas réstias de afecto e toque, então a esperança vive no fundo da caixa de Pandora. O preço por encarar o mundo em toda a sua dura complexidade é alto e muitas vezes desejamos estar cegos. Mas é esse frente a frente que torna o nosso amor por esse mesmo mundo ainda mais belo. Porque é um amor que está para além da beleza, que nasce nas entranhas fedorentas da Humanidade. Não precisamos de mergulhar nelas todos os dias mas "molhar os pés" de vez em quando intensifica tudo o resto. A beleza é mais rica quando é feita de sombras que lhe esculpem os contornos. Se elas não existirem, é apenas uma superfície lisa que não podemos abraçar.
É um grande filme? Não, but who cares? Não foi feito para ser um grande filme, foi feito para ser divertido, para nos fazer ter vontade de saltar para cima da cadeira e cantar. E dá mesmo vontade de cantar todas as músicas a plenos pulmões. Deviam distribuir microfones à entrada.
Se até Stellan Sarsgard, o actor fetiche do "cortador de pulsos" Lars Von Trier, canta em Mamma Mia, porque é que nós ficaríamos calados???
É uma grande interpretação de Meryl Streep? Não, há outras muito melhores. Mas não há nada que ela não consiga fazer bem e, acima de tudo, com um gozo de fazer inveja. Mamma Mia é mais uma prova de que esta grande senhora não se leva demasiado a sério, independentemente do número de Óscares que tem em casa. E pode fazer figura de parva a cantar o Dancing Queen, cheirar linhas de coca em " Adaptation", de Spike Jonze, ter uma quinta em África ou ser uma dona de casa frustada. Tudo cabe em Meryl Streep. Os ícones deveriam ser todos assim: ser respeitada sem ter que ter cara de cú, sem ter que usar sempre o vestido mais bonito da festa. Ser respeitada por ser autêntica e por rir de si própria. Por estar sempre em constante evolução e nada ser demasiado pequeno para nos interessar.
Vão ver, cantem muito e saiam do cinema renovados. Só um conselho: baixem o volume quando o Pierce Brosnan cantar... o senhor pode ser charmoso como Thomas Crown mas tem voz de cana rachada a atirar para o pato.
My my, at waterloo napoleon did surrender
Oh yeah, and I have met my destiny in quite a similar way
The history book on the shelf
Is always repeating itself
Waterloo - I was defeated, you won the war
Waterloo - promise to love you for ever more
Waterloo - couldn’t escape if I wanted to
Waterloo - knowing my fate is to be with you
Waterloo - finally facing my waterloo
We can go dancing, we can go walking, as long as we’re together
Listen to some music, maybe just talking, get to know you better
’cos you know I’ve got
So much that I wanna do, when I dream I’m alone with you
It’s magic
You want me to leave it there, afraid of a love affair
But I think you know
That I can’t let go
If you change your mind, I’m the first in line
Honey I’m still free
Take a chance on me
If you need me, let me know, gonna be around
If you’ve got no place to go, if you’re feeling down
If you’re all alone when the pretty birds have flown
Parecia saída de um guarda-fatos de Narnia, cheia de colares de pérolas, rendas pretas e casacos de peles. Aparecia sempre de surpresa, cansada e vagamente perdida no tempo, como se tivesse vindo numa perignação de doces e histórias tristes. Os doces vinham na mala preta de lantejoulas, reminiscente dos anos 20. As histórias, essas, vinham nos olhos azuis, líquidos e transparentes como água. Eram levemente cinzentos como um mar que já viu muitas tempestades.
Lembro-me de poucas coisas concretas a respeito dela mas é uma presença omnipresente nas minhas memórias de infância. Como um cheiro que nos remete para algo que vivemos, também ela era uma âncora que me ligava à pessoa que eu era. Não pela proximidade emocional mas pelo mecanismo de busca que activava no meu cérebro.
Quando estas âncoras desaparecem será que perdemos um pouco dessa essência distante? Será que os fragmentos esfumaçados da nossa memória são suficientes para ainda lhe dar consistência?
Quando me lembro dela recupero memórias cuja existência eu desconhecia. Provavelmente estavam perdidas no mesmo guarda-fatos de onde ela saia e onde eu me escondia quando era pequena, para fugir da minha avó. Sentava-me no meio dos casacos e em cima das mantas e ali ficava, no escuro, à espera que me encontrassem.
Estas memórias deviam estar no bolso de um desses casacos. Agora que o voltei a usar, levei a mão ao bolso e encontrei-as. Como uma nota ou um bilhete antigo de cinema, já sem cor, que nos faz viajar para o passado.
Se calhar, há uma parte de nós que se torna inacessível à medida que vamos crescendo e só estas âncoras têm força suficiente para as manter à tona. Ou então, a pessoa que erámos nessa infância distante começa a assemelhar-se às imagens do Titanic no fundo do oceano: um pedaço de aço enferrujado a destilar memórias no silêncio líquido. Em toda a sua glória e beleza misteriosa, torna-se indestrutível. O preço que pagamos por esta sobrevivência teimosa é a distância. Da realidade e das âncoras que nos prendem ao solo.