Sunday, September 30, 2007

A Mighty Heart

"In the beginning, all the Lord's people, from all parts of the world, spoke one language. Nothing they proposed was impossible for them. But fearing what the spirit of man could acomplish, the Lord said, "lets us go down and confuse their language so that they may not understand one another's speech".


Daniel Pearl era jornalista do Wall Street Journal. Depois do 11 de Setembro, foi para o Paquistão cobrir a guerra no vizinho Afeganistão. Em vésperas de sair do país, foi raptado por um grupo extremista que reenvindicava melhores condições para os prisioneiros de Guantanamo Bay. A moeda de troca era a vida de Pearl : “Se melhorarem as condições desses prisioneiros, também nós melhoraremos as condições de cativeiro de Daniel Pearl". Algumas semanas depois de ter sido capturado, Pearl foi decapitado. Como seria de esperar (e até lógico) o governo norte-americano recusou-se a negociar – na balança estava a vida de um indivíduo e toda a filosofia de um país. É fácil perceber qual era o lado mais fraco. Nos meandros das grandes questões, as vítimas são sempre de carne e osso. E esta é uma história sobre o que cai nas fendas dessas questões, é uma história de humanidade vista pelos olhos de Marianne, a mulher de Daniel Pearl – também ela jornalista, também ela ali para contar uma história. E foi o que fez, se bem que a história que acabou por contar não tenha sido aquela que esperava.

Marianne Pearl é uma budista francesa, casada com um judeu americano. Talvez por nunca ter falado apenas uma língua, acredita no diálogo. Acredita que a comunicação é o caminho a seguir, que conhecimento é poder. Se pararmos de ouvir o outro, perdemos a esperança. Quando o seu marido foi capturado e morto, estava grávida de cinco meses e não se podia dar ao luxo de perder essa esperança. Nem deixar que a raiva a dominasse. Marianne Pearl recusou ver a sua Humanidade “amputada”. Ela sabia que o sofrimento é uma palavra da linguagem comum, que entre os bons e os maus há toda uma paisagem indefinida Sabia que a dor dela era igual a tantas outras dores Paquistanesas, que situações como a que vivia eram fruto da ignorância e da miséria – ignorância na recusa de tentar perceber o que nos é desconhecido, sabendo que esse entendimento não nos torna cúmplices nem iguais, apenas mais ricos e apetrechados para lutar. Miséria, porque é essa a principal arma do terrorismo, que a usa como forma de obter aliados. Quando a população de países como o Paquistão tiver as suas necessidades básicas resolvidas, talvez seja mais difícil recrutar membros para as jihads. Manter o corpo prisioneiro para impedir o sustento do espírito é uma arma mais poderosa do que todas as bombas.

Marianne tinha a coragem de reconhecer o que tem em comum com quem mudou a sua vida de forma tão violenta, a coragem de não simplificar uma questão que desafia a explicação mais complexa. Sabia que a morte do seu marido não era culpa nem dos americanos nem dos muçulmanos, era consequência da surdez mundial. E os gritos de desespero que lhe saem das entranhas quando descobre que Daniel foi decapitado, quebram qualquer surdez crónica. São gritos que nos trespassam a pele e fazem eco. Um eco compulsivo e incontrolável. Porque se nos calarmos e simplesmente ouvirmos, nesse silêncio interior em que damos espaço ao outro para ecoar em nós, iremos perceber que falamos todos a mesma língua.


(C) Sebastião Salgado

"If you want to be understood, just listen"

http://www.imdb.com/title/tt0829459/

Monday, September 10, 2007

Despojos dos dias (2)


Porque gosto de portas entreabertas...

de beleza forjada em ferrugem...



de luz que rompe a escuridão...




Sentia-se no ar o som surdo do trovão.
Era um daqueles dias cinzentos e quentes, como um vulcão adormecido antes de explodir. Tudo parecia conter uma força esmagada na garganta, impedida de gritar... quem se cansaria primeiro, a mão ou as mil vozes cravadas na pedra?Já se ouviam os sussuros pelas esquinas, transportados pelo vento através de fendas secretas em grutas fechadas. Sentia-se na pele o fio invisível da eternidade. O fio que une o Minotauro a este instante e este instante ao universo. Caminhos que se cruzam e entrecruzam, como os corredores da casa de bonecas....

Tuesday, September 4, 2007

Smile...


Smile though your heart is aching

Smile even though it's breaking

When there are clouds in the sky, you'll get by

If you smile through your fear and sorrow

Smile and maybe tomorrow

You'll see the sun come shining through for you


Light up your face with gladness

Hide every trace of sadness

Although a tear may be ever so near

That's the time you must keep on trying

Smile, whats the use of crying?

You'll find that life is still worth while

If you just smile


That's the time you must keep on trying

Smile, whats the use of crying?

You'll find that life is still worthwhile

If you just smile




Friday, August 31, 2007

I got life

"Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imenso esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos : é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio Tempo. Há apenas uma consolação : uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as expectativas, abrir-se derepente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas) saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais. Só Deus sabe porque amamos tanto isso"


Michael Cunningham, "As horas"

"Na verdade nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado,uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza - nada disso tem horas e minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos?

Stig Dagerman, "A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer"

" Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."


Fernando Pessoa




Wednesday, August 22, 2007

Scream

Nunca gostei muito do Michael Jackson (tirando clássicos como Thriller) mas esta música diz tudo...


Tired of injustice

Tired of the schemes

The lies are disgusting

So what does it mean

Kicking me down

I got to get up

You’re sellin’ out souls but

I care about mine

I’ve got to get stronger

And I won’t give up the fight

With such confusions don’t it make you wanna scream

You keep changin’ the rules

While I keep playin’ the game

I can’t take it much longer

I think I might go insane

Stop pressurin’ me

make me wanna scream

Stop

Sunday, August 19, 2007

Catwoman- Volume 3

What's puzzling you is the nature of my game...

I rode a tank

Held a general's rank

When the blitzkrieg raged

And the bodies stank





You've got enough there to finish me off?

Don't forget to be the way you are

Don't go and sell your soul for self-esteem

Don't be plasticine




Wednesday, August 15, 2007

Instante

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio



Sophia de Mello Breyner Andresen


Para o Pinguim e para a Cris, porque as pequenas coisas são também elas fundadas no silêncio...limpas, lisas, brancas e frescas....e aparecem em instantes, pequenos momentos aos quais temos que estar atentos para que não passem por nós como a brisa, sem os sentirmos, a não ser quando já passaram e apenas ficou na pele a última aragem...seja ela quente ou fria...é importante senti-la para poder sentir a verdade do momento...verdade dura ou verdade doce, mas verdade...porque essa brisa já não volta...


Para todos aqueles que têm a capacidade de ver através das pequenas coisas, não se deixando iludir pelas maiores....


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Para a Anita : para mim, este poema da Sophia sempre esteve associado à integridade, a rectidão, ao defender uma série de valores que nos são tão intrínsecos, que os defendemos contra tudo e contra todos. Depois pode ser secundariamente associado a essas qualidades específicamente no amor ou na amizade. Sempre achei, desde que o li a 1ª vez, que era uma descrição perfeita de alguém que poderia amar. E quanto mais o leio, mais me convenço disso. Mas cheguei também à conclusão de que se pode adequar igualmente à amizade, porque integridade e rectidão são qualidades que valorizo em toda a gente, amigos e amantes. E nesse sentido, minha amiga, este poema é para ti, por todos os anos de amizade... :) e porque a rectidão e integridade de que ele fala, me fez lembrar aquela história do teu avô e da sua honestidade, que dizes sempre que passou para ti...portanto, aqui está :)

Bom resto de semana a todos!